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Sempre achei que não sabia escrever…

Diana Gaspar Amor Próprio, Confiança, Determinação, Diana, Mudança, Paixão 3 Comments

Sempre achei que não sabia escrever. Sentia que não conseguia articular as palavras e que não tinha conhecimentos de português suficientes para escrever de forma correta e bonita. Mas mesmo perante esta dificuldade, sempre sonhei em ser escritora.

Lembro-me de passar numa livraria da baixa da minha cidade e imaginar, sonhar, delirar, não sei bem, que um dia, um livro meu iria estar naquela montra. Era uma livraria especial para mim, onde me refugiava no fim das aulas antes de ir para casa. Era uma livraria com um intenso cheiro a livro, e percebo hoje, que o simples cheiro me continua a tranquilizar e a revitalizar. Talvez só tenha começado a lá entrar, pelo cheiro delicioso a livros.
Ser escritora era um sonho, não sei bem explicar porquê. Não me fascinava o reconhecimento ou os louvores de ter este papel, mas o que isso poderia significar para mim. Esta paixão pelos livros não nasceu com a minha aprendizagem da língua materna, muito pelo contrário. Lembro-me bem da disciplina de português significar um grande desafio embrulhado algumas vezes em sofrimento, porque não me relacionava com as regras da escrita e da leitura da melhor forma possível. Também não sei bem quando esta paixão apareceu, mas é a Fernando Pessoa que atribuo e reconheço o mérito de me encantar pelo sofrimento e pela simplicidade espelhados nos seus poemas. Comecei primeiro pela poesia e só depois passei para outras obras e outros escritores. Senti que no fim da minha adolescência foram os livros que me ajudaram a organizar um interior tão frágil e caótico, e foi aqui que Pessoa entrou, uma vez que me identifiquei com algumas das suas dores e me encontrei em algumas das suas formas de estar, mais “Caeiranas”. Se por um lado Alvaro de Campos e Bernardo Soares bebiam do mesmo sofrimento, encontrava em Caeiro alguma da simplicidade que me faltava para me encontrar.

Ler dava-me ordem, sentia-o. Talvez tenha começado a ler e mais tarde a escrever, por esta necessidade de ordem, e não tanto pelo prazer, que tenho hoje, de ler e escrever. Hoje não preciso de qualquer motivo para o fazer, porque todos os motivos são interessantes: porque gosto, porque me faz sonhar, viajar, especular, refletir, fugir, encontrar, desenhar, organizar, romancear sempre envolvida numa melodia de prazer pela leitura e pela escrita.

Este tem sido um dos meus caminhos de determinação. Expor-me a fazer algo que, se por um lado me dá um prazer imenso é em simultaneamente uma das minhas fragilidades: escrever corretamente. Lembro-me do desconforto que sentia pelo corpo quando partilhei os meus primeiros textos nas redes sociais. Era quase como se tivesse a atirar uma pedra a uma janela e esperar que o vidro não se partisse…

Lembro-me de sentir angustia e alegria em simultâneo, sentindo uma vibração de coragem e de medo em simultâneo…aquele frio que não sabemos bem se é bom ou mau, mas que nos faz sentir vivos e com borboletas na barriga. Se por um lado queria mostrar ao mundo, a minha forma de o ver e sentir, tinha também o medo intenso que não gostassem do que escrevia e de mostrar as minhas fragilidades linguisticas.

E se não gostassem do que estava a escrever?
E se fosse gozada, ou se achassem as minhas palavras uma patetice?
E se em alguns desses textos houvesse erros gramaticais?

Que vergonha seria…ainda hoje sinto algum desconforto, muito pouco perceptível confesso, sempre que partilho algo que considero mais arrojado, sobre a minha forma de ver e sentir o mundo. Há sempre uma voz que me diz: E se não gostarem? E se te acharem ridícula? Felizmente sei hoje que essa voz quer o meu melhor e que no fundo só me está a alertar para estar mais atenta e ser cuidadosa na forma de me expressar, para me proteger, nada mais.

No meu caso acredito que transformei o medo em coragem pela força da minha vontade e da minha determinação. Se por um lado escrever era a ferramenta que tinha descoberto como a maior organizadora interna que tinha encontrado para me entender, descobrir, reconstruir e sarar as minhas dores, por outro tinha pavor que o partilhasse da pior forma possível, com erros gramaticais que derrocassem toda a minha intenção original de mostrar aos outros que para além de termos dentro de nós a força que precisamos para renascer da dor e do sofrimento pelo qual vamos vivendo, a escrita pode ser uma ferramenta poderia para essa transformação acontecer.

Eu não sabia qual seria o resultado da minha exposição, mas sabia qual era minha intenção, e foi a essa que me agarrei, porque se caso assim não fosse, este livro não estaria a ser escrito, e não conseguiria ajudar as centenas de pessoas com quem já me cruzei através do meu trabalho.

Diana

Comments 3

  1. Maria

    Parabéns Diana, adorei o seu livro! E estou a adorar , através dele, ter encontrado o seu Ig e Blog.
    Ao ler este seu testemunho sobre o medo de começar a escrever livros , identifiquei-me tanto…..voltei a sonhar! Obrigada e Beijinhos 😘
    Maria (IG: _mara30 )

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