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Um simples acontecimento, às vezes, muda o resto da vida …

Diana Gaspar Amor, Amor Próprio, Confiança, Determinação, Mudança, Paz, Psicologia Positiva, Viver 3 Comments

“Tinha 20 anos. Tinha em si todos os sonhos do mundo, tal como o seu escritor de cabeceira. Queria aprender sobre a dor e o que fazer perante ela. O que dizer aos que sofriam? Como ajudar todos os que queriam desistir de viver? Essa era a sua missão, o seu desejo e a sua ambição – ajudar os outros a viver bem nas suas vidas. Envolvida neste querer, partiu sozinha sem saber as fragilidades que levava consigo e todas as surpresas que a  esperavam. Mas não importava. Tinha uma missão.

Tinha em si a vontade de se construir, estudar e crescer. Tinha sonhos para construir e o desejo de uma vida para viver, mas não imaginava  pelo que teria de passar, afinal a vida tem em si um sem fim de surpresas. Um simples acontecimento, às vezes, muda o resto de uma vida pelo impacto que pode deixar. A vida pode mudar num ápice e nesse ápice todos os sonhos se podem diluir e aquilo que poderia parecer importante pode deixar de o ser, e vive-versa. E foi o que aconteceu. Tinha vinte anos e todos os sonhos do mundo, até que, numa noite, que parecia igual a qualquer outra, foi atropelada, junto com os seus sonhos também. Do nada, tornou-se em ninguém quando agredida sem permissão. Uma noite que seria só uma noite, passou a ser a noite. Tudo mudou a partir dali. Já não havia sonhos, nem missão, nem amor nem paixão… só dor num corpo partido, magoado e corrompido… Já nada parecia importar, a não ser a necessidade de se esconder e proteger. O golpe foi tão forte que abanou todos os pilares que já parecendo frágeis, se fragilizaram de vez.

Como viver com um corpo partido e esmagado?

Como viver com esta mudança vinda do nada, sem marcação, sem aviso?

A dor de outros já não importara, quando havia uma dor maior…a sua. Nunca conseguiria ajudar ninguém… Desistira de viver por dias. Desistira de sonhar por meses. Desistira de sonhar, para sempre, sentia… Tinha uma dor para resolver e não sabia como o fazer. Perdeu-se e encontrou-se vezes sem sim, as suficientes para querer sair de onde estava e atravessar aquele deserto onde se encontrava. Como se cura um corpo magoado? Como se muda o estado de dor? Como se vive em estado de sobrevivência?

Andou meses no deserto, a sofrer o impensável, perdida, dorida, sofrida… meses e meses…percebendo porém, que maior do que a sua dor era a sua intenção com que um dia tinha partido para o sitio onde ainda se encontrava, na esperança de conseguir renascer depois das cicatrizes e da pele ainda magoada. Mas não tinha forças. O que fazer? Como sair daquele inferno? Como voltar à vida, aos sonhos, e a si depois de tudo? Havia algo dentro de si que lhe gritava bem alto: Precisas de ajuda!!!

Precisava de sair de onde estava. Precisava de se mudar. De se transformar. De mudar alguma coisa…em si e na história que contava obsessivamente para si, sobre o mundo que tinha desabado mas que queria reconstruir. Movia-se entre os sonhos que trazia em si, ou a simples vontade de querer deixar de sofrer. Moveu-a a vontade de florescer da dor e de recomeçar para voltar a permitir-se a sonhar e a viver.

Sabia o quanto isso poderia ser difícil, mas que tudo começava em si e na permissão que precisava de se dar para voltar a sair de casa, a confiar naqueles que se cruzavam na rua a andar, a correr, a conduzir…a respirar. Queria voltar a viver todos os dias fora das quatro paredes do seu quarto, do seu deserto. Afinal o deserto às vezes só tem poucos metros de distância. O corpo já funcionava mas a mente ainda não…estava dorida, estava sofrida, estava revoltada com quem a tinha atropelado…e que atropelo…dias e dias afins presa naquela prisão mental onde rolava da culpa para a raiva, da raiva para a necessidade de sair dali e mudar…

Num dia como qualquer outro, mas não como outro qualquer, enquanto arrumava a sua carteira vazia de vida, encontrou um calendário com uma imagem que lhe chamou a atenção…Um calendário!!! Para quê? Para contar os dias de sofrimento – brincou – ou talvez não… olhou para ele por algum tempo e pensou que podia fazer várias coisas com ele…contar os dias em que estava amorfa fechada naquele quarto com medo de viver, podia marcar os dias sangrentos para se recordar da vida que tinha, ou podia pegar nele e contar os dias a partir daquele dia… depois de olhar vários minutos para ele e observar o desenho rabiscado por trás dos dias, sentiu que o podia usar para simplesmente contar os dias…bons, menos bons e péssimos… mas decidiu também que só ia registar os dias bons, sendo que por dias bons seriam todos aqueles em que conseguia sair de casa e do seu deserto. Sair de casa e do quarto, para outra pessoa qualquer seria uma piada, para ela poderia ser o princípio do fim de tudo aquilo…Registar cada dia de sucesso fizeram sentido para ela, sendo que por sucesso entendia a coragem de voltar a sair de casa e ir aprender sobre a dor, e o que fazer perante ela. E assim foi, queria apenas um dia de cada vez, nada mais.

Um dia de cada vez, sendo que os primeiros dias foram de grande sofrimento. Havia uma voz dentro dela que lhe dizia que ela não iria conseguir. Havia uma voz dentro dela que lhe dizia que lhe poderia voltar a acontecer aquilo que lhe tinha acontecido. Havia uma voz dentro dela que lhe dizia que ela devia ter vergonha e fechar-se dentro de casa para ninguém a ver as suas marcas e cicatrizes. Havia uma voz dentro dela que lhe dizia que não iria ser capaz e que a ideia do calendário era ridícula. Só a ideia de que poderia acontecer de novo, fazia com que pelo seu corpo percorresse um medo intenso e tenebroso, uma sensação de tamanho desconforto que era mais fácil manter-se dentro das quatro paredes do seu quarto. Aí sabia que estava mais protegida.

Havia uma parte de si que queria acreditar, que queria voltar a viver e a lutar pelos seus sonhos. Havia outra, talvez maior, de medo, de raiva, repleta de porquês. Porquê a mim? Como sair deste mundo onde nos agridem sem contarmos, simplesmente porque sim? Esta e tantas outras questões eram marteladas constantes dentro de si, que ressoavam em dor sem nada mais. 

Perdia-se muitas vezes a pensar no porquê a ela, no porquê de tanto sofrimento, no porquê de uma vida assim. Estava sem rumo, sem caminho. Tinha desenhado um, mas não sabia se ainda fazia sentido. Talvez não, não fizesse, pelo menos aquele que tinha tinha feito até ali. Tudo tinha mudado. Precisava de se reposicionar, de criar outras alternativas. Já não ía chagar ao seu objetivo na data que queria. Já não ia ser a mesma. Já nada era igual. Na realidade já nada voltaria a ser igual, e assim sendo, o caminho outrora desenhado já não fazia sentido. Precisava de outro. Mas qual, e como o iria fazer? Tudo o que lhe vinha à cabeça era o que não queria e que a fazia continuar a sofrer.  Talvez precisasse de ajuda para aliviar a sua dor. Nenhum outro objectivo lhe fazia sentido. Tinha de mudar de caminho, fazer uma paragem  talvez, mudar de missão, de  cidade… estava esgotada e sem energia.

Redefiniu o seu caminho, a medo, com muito medo, com alguma descrença, mas com vontade de sair do seu mundo de dor. Queria mudar. Precisava. Queria dizer para si mesma que conseguia,  mesmo que não soubesse bem como. Queria  aprender com a sua dor. Afinal, talvez antes de querer ajudar os outros, precisava na verdade de se ajudar a si mesma, de se transformar e de florescer. Sabia que queria sair dali, de onde estava, o mais rápido possível. Sentia que o seu amor, pelo que era, pelo seu corpo, pela sua história, e por tudo aquilo que fazia parte de si, não existia. Estava perdida em si, sem amor. Precisava de  aprender a amar-se, a curar-se e a criar um mundo de paz dentro de si.

Depois de meses a ler sobre tudo e mais alguma coisa, para se conseguir reerguer e criar a paz que precisava para o fazer, depois de muitas horas de solidão e de lágrimas, de muitas perguntas com e sem resposta, intermitentes com dias de esperança e de intensas leituras, percebeu que a leitura, a meditação e o exercício fisico a podiam ajudar.  Sentiu que quando estava muito sufocada com os seus pensamentos, que bater contra um saco de boxe a alivia e lhe trazia algum poder. Percebeu que as noites longas sem dormir se tornavam mais simpáticas depois de aprender a relaxar e a meditar. Sentiu que os livros lhe traziam outras lufadas de ar fresco quando os lia e colocava em prática o que eles lhe diziam, sendo este movimento literário um reencontro com as suas dores, a partir de outras perspetivas e com outras ferramentas. Sentia-se a devorar o mundo pelas letras. Acreditava que ia encontrar neles uma luz, perspetiva e caminhos. Queria voltar a viver. Queria voltar a amar-se. Queria voltar a sonhar e a confiar numa vida , na sua, nos seus sonhos e na sua missão, apesar de todas as suas circunstâncias e atropelos. Começou a sentir-se então com energia de cura e a florescer.

Havia dias bons, outros maus, outros muito maus. Havia dias de tudo, onde o passado era presente, onde o futuro parecia incansável, onde tudo parecia perdido, e outros, onde parecia existir alguma esperança. Dias para tudo, dias de tudo.  Já tinha percebi que só ela poderia transformar as suas memórias nas suas forças, e que  as historias que circulavam dentro de si, eram  histórias contadas por si para confirmar a sua falta de estima, a sua falta de amor, a sua falta de sorte e a sua falta de  protecção. Percebeu que era um caminho longo, muito longo. Afinal, a agressão só veio confirmar aquilo que já existia dentro de si, só veio trazer à pele as fragilidades já existentes.  Percebera que na vida, as mudanças acontecem quando menos esperava, e que são elas que lhe poderiam permitir saber mais de si e da forma como vivia em si. 

Tinha agora outras forças. Tinha agora outras certezas, sendo no entanto, todas elas ainda muito incertas. Tinha outra vontade de fazer, de renascer. Mas havia uma pergunta que mais do que qualquer outra, a invadia vezes sem fim quando saía todos os dia para estudar. E se voltasse a desistir? E se não conseguir acabar este caminho que voltara a reiniciar? Valeria a pena tanto esforço e investimento? Valeria a pena tanto desconforto e luta? Não sabia. Não sabia…e tinha medo por não saber, de não ter algo a que se agarrar que lhe confirmasse que nada lhe voltaria a acontecer. Sempre que este medo a invadia, sentia que andava para trás, melindrava e paralisava. Deixava de acreditar. Deixava de querer sonhar. Não conseguiria conviver com ideia de uma nova falha…mas voltou a falhar. Houve dias em que a tristeza e os porquês voltavam com força, e a vontade de ficar nas quatro paredes era maior. Dias e dias…em que percebeu que teria de aprender a lidar com a frustração de nem sempre conseguir, de nem sempre ao acordar, renascer para um novo dia, para um novo recomeço.

Descobrira que a vida não era uma linha reta, mas sim uma grande jornada onde depois de uma linha reta, podem surgir grandes subidas e duras descidas, onde o mais importante seria sempre lembrar-se do que queria, e olhar para as cicatrizes quando estas se fizessem sentir, com carinho, perdão e compaixão. Só isto era um trabalho profundo e diário. Não conseguiria no dia presente prevenir que outros dias de dor viessem. Não sabia que estímulos ia sentir e como ia reagira a eles, mas também já tinha percebido que na realidade não controlava quase nada. Poderia apenas olhar para dor com verdade e assumir que ainda não estaria curada. Poderia acarinhar as suas cicatrizes com respeito e compaixão e assumir que mesmos sendo suas, não a resumiam. Podia assumir-se com eles, sabendo que reagiria de forma defensiva a qualquer indício de agressão, e que essa poderia ser a sua maior dificuldade mas a sua maior protecção. Tinha a intenção de se proteger mais, e de se reprogramar para a viver vida com que sonhara apesar de todas as circunstâncias. Afinal, apesar de tudo, apesar de todas as fragilidades, apesar de todos os imprevistos, apesar do caminho sonhado ter sido deturpado, transformado e adido, o Homem continuava a ser sempre do tamanho dos seus sonhos, sendo a força e resiliência proporcional à sua vontade, ao querer e à sua determinação.

Quando há uma vontade sincera e profunda, quando há um caminho para viver, quando se sabe o que se quer apesar da dimensão do caminho e do tamanho da montanha, a mudança vai acontecer, porque mais do que tudo, há um porquê para viver.

A vida é isto. Desafios, imprevistos, recomeços, coragem, bravura, determinação, rotinas, hábitos, amor, partilha, dor, sorrisos, medo, desafios, conforto e desconforto, amizade, frustração, projetos e missões, viagens e metáforas, pausas, prazer e muita respiração. A vida é tudo aquilo que sentimos, tudo aquilo que vivemos dentro e fora de nós. A vida é um conjuntos de vidas que se cruzam umas nas outras para se reconstruírem em conjunto e em conjunto cada uma dessas vidas se reencontrar. A vida é uma sequência de experiências boas e más, sendo que bom e mau pode ser só uma interpretação nossa de acordo com aquilo que esperávamos, queríamos e ambicionávamos. A vida é uma condensação de significados que podem ser sempre mudados e transformados em função daquilo que queremos viver, de como a queremos viver, com quem, e com que intenção. A vida é tudo o que passa por nós através daquilo que atraímos, sentimos, construímos, vivemos e redefinimos. Diria que a vida é uma reconstrução contínua onde podemos recriar sempre as nossas dores,  onde nos podemos todos os dias flexibilizar, onde podemos sempre ouvir aquilo que estamos a sentir com carinho e aceitação, onde podemos sempre recomeçar, as vezes necessárias das formas necessárias, no tempo preciso. A vida é sempre uma experiência única onde podemos escolher que caminho queremos fazer, que pós mágicos queremos semear, alimentar e partilhar, onde todos temos os recursos dentro de nós para resolver e transformar o que quer que seja.

A vida é uma mudança constante onde podemos escolher ser as vítimas, os guerreiros, os “garreiros”, os curativos, os apaixonados, os dramáticos, os positivos, os impressionistas, os críticos e invejosos, os inspirados e o que inspiram, os que escolhem chorar perante a adversidade e os que a enfrentam a vida de coração aberto, onde uns vivem de acordo com as suas próprias regras e outros se aprisionam nas regras construídas por outros.

Diana

p.s. abraça a tua mudança e vai, com medo mas sem mas…

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