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Os pais podem ser amigos dos filhos?

Diana Gaspar Uncategorized 2 Comments

“Nim”. Nem sim, nem não. Depende!

Esta é das questões que mais me colocam em consulta. Penso que a resposta não é linear e tem alguns contornos que precisam de ser analisados e discutidos, sem chavões, verdades absolutas e fundamentalismos.

Por amizade entendo ser uma relação próxima, onde existem partilhas intimas daquilo que pensamos, sentimos e fazemos, a todos os níveis. Quando pensamos num amigo pensamos em alguém a quem podemos recorrer quando não estamos bem, quando precisamos de desabafar, pedir outras opiniões, perspectivas e com quem partilhamos momentos de felicidade e tristeza, projectos futuros e um sem fim de experiências. Isto é ter uma relação de amizade.

Acredito que muitas destas questões que contemplam uma amizade podemos e devemos ter com os filhos e eles connosco. Aliás, costumo partilhar com os pais com quem trabalho diariamente, que se os filhos não recorrem a eles para partilharem pequenas experiências, emoções e perspectivas não vão recorrer quando tiverem algum problema ou desafio maior ou mais grave. E mais, se quando nos abordam para partilhar algo que na perspetiva deles não correu tão bem, assumirmos para com eles uma postura de superioridade e critica, eles vão fugir de nós porque precisam essencialmente, nestes momentos, que os escutem e que os ajudem, sem critica nem julgamento. Caso contrário, numa experiência posterior idêntica, nada partilharão e quebramos canais de confiança e o amor. Afinal, quem gosta de ser criticado ou julgado quando está vulnerável? Os filhos sentem como os pais, porque apesar da diferença de idade e experiências, a sensação de desconforto e dor é a mesma.

Portanto, acredito que quanto mais simples, mais intima e mais confiável for a relação entre filhos e pais, será o melhor para todos. No entanto, esta amizade precisa de ter limites bem claros porque se nos cabe a nós pais ser a baliza e dar suporte às várias vivências internas e externas dos filhos, não cabe aos nossos filhos ser a baliza de todos as dores principalmente as mais intimas que se relacionam com a vida conjugal, profissional e pessoal.

A experiência profissional têm-me mostrado de forma clara que há questões das vidas dos pais que os filhos não precisam nem gostam de saber. Primeiro porque assumem um papel de cuidadores querendo ser eles os pais dos pais, cuidando deles, procurando respostas, alternativas e soluções para situações que muitas vezes ainda não conseguem processar do ponto de vista emocional – a isto chamamos de parentalização – para além de assumirem responsabilidades que não são suas e que envolvem outras pessoas, às vezes, também muito significativas para eles.

Assim sendo, cabe aos pais assumir que embora os filho tenham o mesmo respeito, sejam merecedores da mesma confiança e do mesmo reconhecimento como pessoa, que são seus filhos e que não precisam de ser eles a processar, ajudar, escutar, acolher e resolver conflitos conjugais, familiares e profissionais. O seu crescimento, por si, já é bastante exigente e os pais podem de devem procurar outro tipo de ajuda.

Não precisam os filhos de ser vistos como amigos e confidentes dos seus pais para os filhos terem nos pais um colo afável, de suporte, de amizade, de colaboração e construção onde todos crescem, incluindo os próprios pais, em aceitação, liberdade e amor.

Diana

Comments 2

  1. João Carvalhido

    Amigo é querer o bem do outro, ajudar o outro. A forma como se materializa, como se vive a amizade é que pode influenciar a sua consistência. Não existe um padrão de relacionamento com todos os amigos. Assim, eu sou amigo da minha filha e até agora (9 anos) creio que me tem como amigo: confidencia, pede ajuda, conversa muito comigo. Eu, filtro o que se pode contar a uma criança. Educo, não abdico disso. Corrijo e passo valores. Quando os limites são ultrapassados, há suaves penalizações. Custa-me muito ouvir que não podemos ser amigos dos nossos filhos. Caramba, quem melhor que nós, pais, que os amamos?

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      Diana Gaspar

      Olá João! Obrigada pela tua partilha bem interessante. O texto não diz que não podemos ser amigos dos nossos filhos. Diz que os limites desta amizade devem ser bem claros e conscientes por parte dos pais. E não tem a ver com educar ou não, tem a ver com aquilo que os nosso filhos conseguem ou não processar em relação a confidencias nossas que lhes podemos fazer. Tenho pais que me dizem que partilham de tudo com os seus filhos, e neste “tudo”, às vezes, os filhos quer mais novos quer mais velhos, não conseguem digerir nem processar. Porque são filhos e como filhos desenvolvem uma série de preocupações excessivas em relação aos seus pais. E muitas vezes nascem aqui problemas sérios do ponto de vista emocional. Esta, também é, uma das minhas realidade profissional nos últimos anos.

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